Kaísa Montagnani — Advogada Trabalhista
Acidente e Doença

Adicional de insalubridade e de periculosidade: quem tem direito e como é calculado

Calor, ruído, agentes químicos, limpeza de banheiros coletivos, contato com inflamáveis ou energia elétrica, transporte de valores e trabalho de motoboy podem gerar adicional no salário. Entenda a diferença entre insalubridade e periculosidade e quando cada um é devido.

Por Kaísa Montagnani ·
Adicional de insalubridade e de periculosidade: quem tem direito e como é calculado

Trabalhar exposto a calor, ruído, produtos químicos, agentes biológicos, inflamáveis, energia elétrica ou situações de risco à vida pode dar direito a um acréscimo no salário. Esse acréscimo tem dois nomes — adicional de insalubridade e adicional de periculosidade — e regras bem diferentes.

Qual a diferença entre os dois

Insalubridade é a exposição a agentes que fazem mal à saúde ao longo do tempo: ruído acima do limite, calor excessivo, frio, umidade, poeiras, agentes químicos e biológicos. Os agentes e limites estão listados na NR-15 do Ministério do Trabalho.

Periculosidade é a exposição a um risco de vida — algo que pode causar um acidente grave a qualquer momento: inflamáveis, explosivos, energia elétrica, radiação ionizante, exposição a roubos ou violência física (segurança pessoal e patrimonial) e trabalho habitual em motocicleta.

Quanto vale cada adicional

Insalubridade — percentual conforme o grau, aplicado, em regra, sobre o salário mínimo:

  • Grau mínimo: 10%
  • Grau médio: 20%
  • Grau máximo: 40%

A base de cálculo (salário mínimo) decorre da Súmula Vinculante 4 do STF: o mínimo continua sendo o parâmetro até que norma coletiva ou decisão judicial estabeleça base mais favorável — o que acontece em várias categorias.

Periculosidade30% sobre o salário-base do trabalhador (não sobre o mínimo). Por isso, quem tem direito aos dois normalmente opta pela periculosidade.

Não é possível acumular

O Art. 193, §2º, da CLT proíbe receber insalubridade e periculosidade ao mesmo tempo. Se as duas situações estão presentes, o trabalhador escolhe uma — a que resultar em valor maior.

Situações que costumam gerar insalubridade

  • Ruído acima de 85 dB(A) para jornada de 8 horas, sem proteção eficaz
  • Calor acima dos limites de tolerância (medido por IBUTG), comum em cozinhas industriais, siderúrgicas, lavanderias
  • Agentes químicos: solventes, ácidos, poeiras minerais, cimento, sílica
  • Agentes biológicos: contato com pacientes, lixo hospitalar, esgoto
  • Limpeza de banheiros de uso coletivo e grande circulação e coleta de lixo urbano — reconhecidos pela Súmula 448 do TST
  • Frio e umidade em atividades específicas

Situações que costumam gerar periculosidade

  • Inflamáveis: frentistas de posto, trabalho com botijões de GLP, abastecimento de aeronaves
  • Energia elétrica: eletricistas e quem trabalha no sistema elétrico de potência
  • Explosivos e radiação ionizante
  • Segurança pessoal ou patrimonial: vigilantes e quem transporta valores expostos a risco de assalto (Lei 12.740/2012)
  • Motocicleta: uso habitual da moto no trabalho — motoboys e quem faz entregas ou visitas de moto (Art. 193, §4º, da CLT)

Como o direito é reconhecido

Tanto a insalubridade quanto a periculosidade dependem de perícia técnica. Na via administrativa, o laudo é elaborado pela própria empresa (PPRA/PGR, laudo LTCAT). Em uma ação trabalhista, o juiz nomeia um perito para avaliar o ambiente e as atividades (Art. 195 da CLT).

O uso de EPI eficaz pode afastar a insalubridade em alguns casos (ruído, agentes químicos), mas não em todos — e a empresa precisa comprovar o fornecimento, a troca periódica e a fiscalização do uso.

Os adicionais integram outras verbas

Pagos com habitualidade, insalubridade e periculosidade refletem em férias + 1/3, 13º salário, aviso prévio, FGTS e descanso semanal remunerado. Empresas que pagam o adicional “por fora” desses cálculos geram diferenças cobráveis.

O que fazer se você trabalha exposto e não recebe

  1. Descreva com precisão suas atividades — o que você manuseia, por quanto tempo, com que frequência, com ou sem proteção
  2. Guarde fotos, ordens de serviço, fichas de EPI e o crachá da função
  3. Anote colegas que exercem a mesma atividade — podem ser testemunhas
  4. Busque orientação jurídica para avaliar se o caso comporta perícia e cobrança retroativa

Qual o prazo

O prazo é de 2 anos após o fim do contrato, podendo cobrar diferenças dos últimos 5 anos trabalhados.


Trabalha ou trabalhou exposto a calor, ruído, químicos, inflamáveis, eletricidade ou risco de assalto sem receber o adicional? Converse com a advogada para avaliar se há direito e como comprovar.

Perguntas frequentes

Posso receber os dois adicionais ao mesmo tempo?

Não. O Art. 193, §2º, da CLT veda a acumulação. Quando o trabalhador tem direito aos dois, ele deve optar pelo mais vantajoso — normalmente a periculosidade, porque incide sobre o salário-base.

Sobre qual valor incide cada adicional?

A periculosidade é sempre 30% sobre o salário-base. A insalubridade, em regra, incide sobre o salário mínimo (10%, 20% ou 40% conforme o grau), salvo se acordo ou convenção coletiva, ou decisão judicial, fixar base mais favorável.

Limpar banheiro dá direito a insalubridade?

Depende. A Súmula 448 do TST reconhece a insalubridade na limpeza de banheiros de uso coletivo e grande circulação e na coleta de lixo urbano. A limpeza de um banheiro de escritório pequeno, de pouca circulação, em regra não gera o adicional.

Tem dúvidas sobre sua situação?

Cada caso tem suas especificidades. Conversar diretamente é a melhor forma de entender o que se aplica à sua situação.

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